A fábrica de noodles

Siem Reap não é apenas os templos de Ankor. Esta "fábrica" é um lugar que vale a pena visitar.

 

Os Templos de Angkor Wat, no Camboja, são considerados uma das “maravilhas do mundo”. Para os ver voei de Banguecoque para Siem Reap, a cidade vizinha do complexo de templos de Angkor. Mas, por defeito meu, tenho uma capacidade bastante limitada de ver monumentos a eito. Por isso, ao final do segundo dia, soube que tinha chegado o momento de fazer uma pausa de templos.

Daí não ter resistido à sugestão de Marketa, uma realizadora Checa a rodar um documentário no Camboja, para ir visitar uma fábrica de noodles, segundo as suas palavras, pouco convencional. No dia seguinte perceberia que pouco convencional era um eufemismo.

Bem cedo, Veasna, o meu condutor de tuk-tuk, levou-me até ao limite do Parque de Angkor, ao que me pareceu ser apenas mais uma típica casa khmer. Era uma simples habitação de madeira, sobre estacas, com uma escada exterior de acesso ao primeiro andar, onde ficava a casa propriamente dita.

No piso térreo, lá estavam o krey (um estrado baixo de madeira quadrado do tamanho de uma grande mesa que é usado como “sofá” pelas famílias khmer) e a sarngung (camas de rede), objetos de mobiliário “obrigatórios” em qualquer casa khmer. Num telheiro, anexo à casa, ficava a fábrica de noodles de arroz.

Na verdade, de fábrica só tinha o nome. À primeira vista, não passava de um bocado de terra batida, por vezes lamacenta, repleta de estranhos instrumentos.

Sob o telheiro, sentadas sobre outro krey, estavam, em amena cavaqueira, quatro mulheres (Phern, a mãe, duas filhas e uma vizinha). À sombra, no chão, dormia um cachorro enquanto, à sua volta, as galinhas e os seus pintos cacarejavam e debicavam o chão. Ao lado passava, em fila, uma família de patos, rumo aos arrozais da vizinhança. Na outra ponta do telheiro, um rapaz (um dos muitos filhos de Phern) entretinha-se a tomar conta de uma fogueira onde, dentro de um enorme e encardido panelão, borbulhava água.

De repente, como se tivesse soado um gongo, deu-se início a um dos mais insólitos espetáculos culinários que já assisti.

Num processo bem ensaiado, a farinha de arroz, em repouso desde o dia anterior, é amassada, espremida, cozida e embalada. Tudo é feito diariamente com o equipamento mais rudimentar que já vi. Porém, gigantesco, ao ponto, desta família khmer me lembrar um grupo de pequenos hobitts acabadinhos de sair do Senhor dos Anéis.

Tudo começa com o preparar da massa, num pilão estilo balancé, em que num dos lados estava a irmã mais velha, a revirar, com as mãos, a massa nos intervalos do ritmado sobe e desce do pilão. No outro, a impor o vai e vem do pilão, saltavam três jovens. A tarefa foi levada como uma brincadeira – afinal de contas andavam de balancé. Inclusivamente, a irmã mais velha, que, a qualquer momento podia ficar com a mão esmagada, ria à gargalhada enquanto ia virando a massa nos intervalos da queda do pilão. Apenas eu, sempre a ver quando a mão da rapariga seria prensada pelo pilão, e o cão indolente a dormir sob o krey, não participámos em tamanha diversão.

O passo seguinte dá a forma de esparguete aos noodles (apesar de segundo rezar a história ser o esparguete a ter forma de noodles). Tal é feito obrigando a massa a passar por um grande passador e expelindo-a para dentro do grande panelão com água a ferver.

Para obrigar a massa a atravessar tão pequenos orifícios, o rapaz, o responsável por esta zona, sentou-se sobre uma comprida viga de madeira ligada ao êmbolo que, por sua vez, empurra a massa em direção à água.

Uma rápida passagem de dois minutos pela água a ferver e a cozedura dos noodles está no ponto. De seguida é tirá-los do panelão e deixá-los a escorrer dentro de um cesto de verga. Os patos, quando viram este maná, grasnaram de alegria e correram para se deleitar com essa água. O cachorro, com tal agitação, mudou de poiso, para junto da casa, para poder continuar a dormir descansadamente.

O final da confeção não podia ser mais contrastante com o que vi anteriormente. Num bailado de mãos, mãe e filha, sentadas sobre o krey, foram colocando cuidadosamente os noodles, ainda quentes, num grande cesto de palha previamente forrado de folhas de bananeira.

Quando o cesto está cheio, os noodles formam um bonito padrão digno de exposição na mais requintada loja gourmet. Estes tabuleiros são vendidos diariamente no mercado de Siem Reap e provavelmente consumidos, com deleite, nos seus melhores hotéis.

E sim, provei estes noodles (apenas com uma pitadinha de pimenta moída) acompanhados de “vinho” de arroz. Que maravilha! Nunca esquecerei estes noodles de arroz acabadinhos de fazer.

 

Como visitar a fábrica de noodles

Esta fábrica de noodles fica perto do templo Banteay Samre (uns 500 metros antes do lado esquerdo da estrada vindo de Siem Reap). Inclua a visita à fábrica num passeio matinal pelos templos de Angkor ou na ida a uma das aldeias flutuantes (um tuk-tuk durante uma manhã custa cerca de 15USD). Chi Veasna, o meu condutor de tuk-tuk desse dia, leva-o lá direitinho (telefone 086484313).