Eco Eden Flores - Indonésia

Este é Philip, o proprietário do Eco Eden Flores, no norte da Ilha de Flores na Indonésia (em Pantai Watulajar perto de Riung). Não é um local fácil de chegar, é mesmo o local mais remoto em que estive nesta ilha. 

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O Eco Eden Flores é um hotel composto por meia dúzia de muito simples bungalows. Não é luxuoso, antes pelo contrário. E o serviço não é fantástico. Então porquê ficar aqui?

Porque fica numa praia deserta de uma beleza arrebatadora. Não, daquelas praias paradisíacas, típica dos postais. Mais, de uma beleza agreste, daquelas que nos surpreende pela sua força.

 A vista da mesa do pequeno almoço

A vista da mesa do pequeno almoço

 Um passeio de barco pelas inúmeras ilhas

Um passeio de barco pelas inúmeras ilhas

O Philip fez o resto para que a nossa estada fosse especial. Rapidamente nos pôs à vontade. Convidou-nos para um casamento que ia haver na vizinhança, arranjou-nos um barco para um passeio nas ilhas e fez-nos o melhor peixe que comi na Indonésia (e eu sou bem esquisito com o peixe grelhado que leva mais que sal e limão). 

Este estranho local, bem no “fim do mundo”, feito para passar o dia a “aboborar”, ficou-me no coração. 

Obrigado Philip!

 

Os mundos de Pisac

Cheguei a Pisac no final da manhã do meu primeiro dia no Vale Sagrado, o coração inca do Peru. O povoado, cheio de turistas, pareceu-me, à partida, mais uma vila andina transformada em feira de recuerdos. Pisac é um lugarejo sem grandes atracções (não confundir com as ruinas Incas de Pisac, lá bem acima na montanha), contudo, ao Domingo tem um grande mercado. E isso é sempre prometedor!

As bonitas bancas, com toldos de lona, estavam organizadas em corredores largos e direitos. Aqui expunham-se todas as típicas lembranças, desde a T-Shirt com as linhas de Nasca até à camisola de alpaca. Aqui ouvia-se os turistas a tentar regatear as suas compras. Outros bebiam Cusqueña, a cerveja emblemática da região, sentados nas varandas das casas convertidas em restaurantes. Todos eles fugiam do sol inclemente dessa manhã.

A Aldeia de Pisac e os seus dois mercados

Todavia, Pisac não foi sempre assim. Ao contrário do que parece, não foram os turistas que fizeram a feira, mas sim a feira que trouxe os turistas. Sendo uma das principais vilas do vale, a feira de Domingo começou por ser o local de encontro entre agricultores do vale e habitantes dos povoados da montanha. Aqui vinham para comprar, vender e trocar os seus artigos.

Junto à Igreja, bem em frente às lojas e aos restaurantes, fica o outro mercado, este de frutas e legumes. Tem uma aparência espontânea e provisória. Aqui predominam o quechua (a língua dos Andes), as saias largas, os ponchos e panos de cores garridas e as faces morenas. Os produtos, apesar de conhecidos, são-nos estranhos. As batatas são pequenas e mirradas e cada maçaroca de milho parece ser de sua espécie.

Em Pisac, existem dois mundos paralelos que, apenas por vezes, se intersectam. As feiras, apesar de vizinhas, são independentes. Os clientes de uma não querem saber da outra.

O mercado "tradicional" em Pisac

D. Rosa Quinto

Na sua banca de comida, Rosa Quinto, vê, impávida, este espectáculo. Já são tantos os Domingos que ali passou… Mas ali na sua banca os mundos tocam-se. Enquanto, a um canto, eu e o meu primo André comemos aquele que viria a ser o melhor rocoto relleno (pimento recheado) da viagem, na outra ponta da mesa, uma mulher come um caldo de carne. Não posso deixar de notar num maxilar de carneiro, ainda com dentes, que sai da tigela. Atrás, artistas vendem quadros e bijutaria de inspiração Inca. Mesmo à frente fica o mercado de frutas e verduras.

E assim, D. Rosa sentada no seu banco, vai vendo passar os dois universos paralelos que, na sua banca, de quando em quando, se intersectam quando um turista esfomeado pergunta “qué es esto?”

Um caldo de cordeiro na banca da D. Rosa

 

A fábrica de noodles

Siem Reap não é apenas os templos de Ankor. Esta "fábrica" é um lugar que vale a pena visitar.

 

Os Templos de Angkor Wat, no Camboja, são considerados uma das “maravilhas do mundo”. Para os ver voei de Banguecoque para Siem Reap, a cidade vizinha do complexo de templos de Angkor. Mas, por defeito meu, tenho uma capacidade bastante limitada de ver monumentos a eito. Por isso, ao final do segundo dia, soube que tinha chegado o momento de fazer uma pausa de templos.

Daí não ter resistido à sugestão de Marketa, uma realizadora Checa a rodar um documentário no Camboja, para ir visitar uma fábrica de noodles, segundo as suas palavras, pouco convencional. No dia seguinte perceberia que pouco convencional era um eufemismo.

Bem cedo, Veasna, o meu condutor de tuk-tuk, levou-me até ao limite do Parque de Angkor, ao que me pareceu ser apenas mais uma típica casa khmer. Era uma simples habitação de madeira, sobre estacas, com uma escada exterior de acesso ao primeiro andar, onde ficava a casa propriamente dita.

No piso térreo, lá estavam o krey (um estrado baixo de madeira quadrado do tamanho de uma grande mesa que é usado como “sofá” pelas famílias khmer) e a sarngung (camas de rede), objetos de mobiliário “obrigatórios” em qualquer casa khmer. Num telheiro, anexo à casa, ficava a fábrica de noodles de arroz.

Na verdade, de fábrica só tinha o nome. À primeira vista, não passava de um bocado de terra batida, por vezes lamacenta, repleta de estranhos instrumentos.

Sob o telheiro, sentadas sobre outro krey, estavam, em amena cavaqueira, quatro mulheres (Phern, a mãe, duas filhas e uma vizinha). À sombra, no chão, dormia um cachorro enquanto, à sua volta, as galinhas e os seus pintos cacarejavam e debicavam o chão. Ao lado passava, em fila, uma família de patos, rumo aos arrozais da vizinhança. Na outra ponta do telheiro, um rapaz (um dos muitos filhos de Phern) entretinha-se a tomar conta de uma fogueira onde, dentro de um enorme e encardido panelão, borbulhava água.

De repente, como se tivesse soado um gongo, deu-se início a um dos mais insólitos espetáculos culinários que já assisti.

Num processo bem ensaiado, a farinha de arroz, em repouso desde o dia anterior, é amassada, espremida, cozida e embalada. Tudo é feito diariamente com o equipamento mais rudimentar que já vi. Porém, gigantesco, ao ponto, desta família khmer me lembrar um grupo de pequenos hobitts acabadinhos de sair do Senhor dos Anéis.

Tudo começa com o preparar da massa, num pilão estilo balancé, em que num dos lados estava a irmã mais velha, a revirar, com as mãos, a massa nos intervalos do ritmado sobe e desce do pilão. No outro, a impor o vai e vem do pilão, saltavam três jovens. A tarefa foi levada como uma brincadeira – afinal de contas andavam de balancé. Inclusivamente, a irmã mais velha, que, a qualquer momento podia ficar com a mão esmagada, ria à gargalhada enquanto ia virando a massa nos intervalos da queda do pilão. Apenas eu, sempre a ver quando a mão da rapariga seria prensada pelo pilão, e o cão indolente a dormir sob o krey, não participámos em tamanha diversão.

O passo seguinte dá a forma de esparguete aos noodles (apesar de segundo rezar a história ser o esparguete a ter forma de noodles). Tal é feito obrigando a massa a passar por um grande passador e expelindo-a para dentro do grande panelão com água a ferver.

Para obrigar a massa a atravessar tão pequenos orifícios, o rapaz, o responsável por esta zona, sentou-se sobre uma comprida viga de madeira ligada ao êmbolo que, por sua vez, empurra a massa em direção à água.

Uma rápida passagem de dois minutos pela água a ferver e a cozedura dos noodles está no ponto. De seguida é tirá-los do panelão e deixá-los a escorrer dentro de um cesto de verga. Os patos, quando viram este maná, grasnaram de alegria e correram para se deleitar com essa água. O cachorro, com tal agitação, mudou de poiso, para junto da casa, para poder continuar a dormir descansadamente.

O final da confeção não podia ser mais contrastante com o que vi anteriormente. Num bailado de mãos, mãe e filha, sentadas sobre o krey, foram colocando cuidadosamente os noodles, ainda quentes, num grande cesto de palha previamente forrado de folhas de bananeira.

Quando o cesto está cheio, os noodles formam um bonito padrão digno de exposição na mais requintada loja gourmet. Estes tabuleiros são vendidos diariamente no mercado de Siem Reap e provavelmente consumidos, com deleite, nos seus melhores hotéis.

E sim, provei estes noodles (apenas com uma pitadinha de pimenta moída) acompanhados de “vinho” de arroz. Que maravilha! Nunca esquecerei estes noodles de arroz acabadinhos de fazer.

 

Como visitar a fábrica de noodles

Esta fábrica de noodles fica perto do templo Banteay Samre (uns 500 metros antes do lado esquerdo da estrada vindo de Siem Reap). Inclua a visita à fábrica num passeio matinal pelos templos de Angkor ou na ida a uma das aldeias flutuantes (um tuk-tuk durante uma manhã custa cerca de 15USD). Chi Veasna, o meu condutor de tuk-tuk desse dia, leva-o lá direitinho (telefone 086484313).